Devido ao vergonhoso incidente em Oruro, o Corinthians foi forçado pela
Conmebol a disputar suas partidas como mandante pela Copa Libertadores sem
torcida. Supondo que a entidade não atenue a punição (o que pode muito bem
acontecer), será um grande golpe para o atual campeão continental – não só pelo
lado financeiro, mas também esportivamente.
Todo mundo sabe que jogar em casa, com o apoio da torcida, é uma vantagem
considerável. E não é difícil quantificar essa vantagem: basta comparar o
número de jogos vencido pelos mandantes com a quantidade de empates e de
vitórias dos visitantes em um torneio.
Considerando-se os dados da última temporada, nota-se que a vantagem do
“fator casa” varia muito de um campeonato para o outro. E, para azar do
Corinthians, a Libertadores é justamente aquele onde jogar em frente a torcida
mais importa:
|
Campeonato
|
Vitórias casa
|
Empates
|
Vitórias visitante
|
Casa – visitante
|
|
Libertadores
2012
|
57,9%
|
21,4%
|
20,7%
|
37,2
|
|
Liga dos
Campeões 2011/2
|
50,0%
|
25,0%
|
25,0%
|
25,0
|
|
Brasileiro
2012
|
48,4%
|
27,6%
|
24,0%
|
24,4
|
|
Espanhol
2011/2
|
49,2%
|
24,7%
|
26,1%
|
23,1
|
|
Holandês
2011/2
|
50,7%
|
20,6%
|
28,7%
|
22,0
|
|
Francês
2011/2
|
45,8%
|
29,7%
|
24,5%
|
21,3
|
|
Italiano
2011/2
|
45,8%
|
29,2%
|
25,0%
|
20,8
|
|
Português
2011/2
|
47,9%
|
22,1%
|
30,0%
|
17,9
|
|
Alemão
2011/2
|
45,4%
|
25,8%
|
28,8%
|
16,6
|
|
Inglês
2011/2
|
45,0%
|
24,5%
|
30,5%
|
14,5
|
|
Argentino
2011/2
|
38,2%
|
34,5%
|
27,3%
|
10,9
|
|
Japonês
2012
|
40,5%
|
24,8%
|
34,7%
|
5,8
|
|
MÉDIA GERAL
|
47,1%
|
25,8%
|
27,1%
|
20,0
|
No torneio sul-americano, o número de vitórias do mandante é quase o triplo
do visitante – na maioria dos campeonatos, não chega a ser nem o dobro. Essa
força da “casa” na Libertadores pode ser atribuída a fatores específicos do
torneio, como altitude, agressividade das torcidas e “caldeirões” como a
Bombonera.
Na outra ponta da lista, está o Campeonato Japonês, onde quase não houve
diferença entre jogar em casa ou fora. Seriam os torcedores orientais “frios”
demais? Antes de responder que sim, considere que o Campeonato Argentino também
está entre aqueles em que o “fator casa” foi mais fraco.
Vale lembrar que, em 2012, fiz esta mesma análise, considerando os dados datemporada anterior.
Embora haja oscilação considerável entre os dados, é possível afirmar que há
uma correlação leve entre os dois anos. Por outro lado, não há nenhuma relação
entre a força do “fator casa” e o índice de equilíbrio dos torneios (seria de
se esperar que jogar em casa fizesse mais diferença em campeonatos muito
equilibrados, o que não é o caso).
Embora os números variem muito de país para país (e mesmo em diferentes
temporadas de um mesmo campeonato), a média geral se manteve bem estável nestes
dois anos. Tanto na temporada 2010/1 quanto na 2011/2, os mandantes ganharam
47% das partidas, os visitantes venceram 27% e houve 26% de empates.
Há duas semanas, publiquei um post sobre a evolução do equilíbrio noCampeonato Português.
Nos comentários, o leitor Alexandre levantou a possibilidade de que o
Campeonato Holandês tenha visto seu equilíbrio crescer nos últimos anos, dada a
maior emoção que se vê na briga pelo título.
De fato, nos últimos 3 anos (e em 5 dos últimos 6), a diferença entre o
campeão e o vice nunca foi maior que 6 pontos – e, não por acaso, em nenhuma
dessas edições a dupla Ajax/PSV ocupou os 2 primeiros lugares. Mesmo assim, não
dá para dizer que o equilíbrio está em alta, como mostra o gráfico abaixo:
Em laranja, o Índice de Equilíbrio
de cada ano; em preto, a linha de tendência calculada pelo Excel.
Para entender por que o equilíbrio está baixo mesmo com brigas parelhas pelo
título, é importante lembrar que o índice leva em conta todos os times, do
primeiro ao último colocado. O campeonato de 2009/10
é exemplar. Nesse ano, apenas 1 ponto separou o campeão Twente do vice Ajax. Ao
mesmo tempo, essa foi a edição menos equilibrada da história do Holandês. Por
quê? Porque os dois líderes beiraram 84% de aproveitamento, enquanto o lanterna
teve menos de 15%. Assim, os times ficaram todos “espalhados” na tabela – a
ponto de não haver nenhum empate, em pontos, entre duas equipes, fato raríssimo.
Feita a explicação metodológica, vale dizer que, embora o equilíbrio recente
esteja perto dos níveis mais baixos da história, a tendência de queda parece
haver arrefecido (a linha aponta para baixo devido ao péssimo índice de
2009/10). As duas grandes fases de queda concentraram-se nas décadas de 1960 e
1990, separadas por um período de considerável crescimento, principalmente nos
anos 1980. Nos últimos 10 anos, a situação parece ter se estabilizado num
patamar próximo da mínima histórica.
Comparando o Holandês com outros campeonatos da Europa, temos o seguinte
gráfico:
Em laranja, Campeonato Holandês; em verde, Campeonato Italiano; em vermelho,
Campeonato Inglês; em amarelo, Campeonato Espanhol; em marrom, Campeonato
Português.
Considerando-se a partir da temporada 1956/7 (quando o Holandês começou a
ser disputado em pontos corridos), percebe-se que, no início, a Eredivisie
tinha equilíbrio similar ao dos grandes campeonatos europeus. Mas logo as
principais forças do país se consolidaram, e então a tendência de
(des)nivelamento passou a ser parecida com a de Portugal, fato que se mantem
até hoje.
No próximo dia 20, o Corinthians estreia na Libertadores, mas é no dia 6 de
março que o clube brasileiro enfrentará seu adversário mais difícil da fase de
grupos, o Tijuana. Aliás, difícil não é só vencer a equipe, mas também
pronunciar seu nome: Xoloitzcuintles
de Tijuana (mais precisamente, Club Tijuana Xoloitzcuintles de Caliente). Não
por acaso, a imprensa mexicana chama do time de “Xolos” ou, simplesmente, de
“Tijuana”, como tem sido feito também no Brasil.
Trata-se de um raríssimo caso de clube cujo nome começa com a letra “X”.
Pesquisando na enorme base de dados do Football Manager, foi possível encontrar
apenas outros 8 casos (times que começam com “XV”, como por exemplo o XV de
Piracicaba, não estão incluídos):
Xerez (Espanha)
Xanthi (Grécia)
Xochitepec (México)
Xelajú (Guatemala)
Xinabajul (Guatemala)
Xorazm (Uzbequistão)
Xazar (Azerbaijão)
Xam-Xam (Senegal)
Só para matar a curiosidade: “Xoloitzcuintle” é o nome de uma raça de
cachorro, conhecida no Brasil como “Pelado Mexicano”. Esse cão, inclusive, está
presente no escudo do clube.
Aproveitando o marasmo que é a primeira fase dos campeonatos estaduais,
volto a analisar a evolução do equilíbrio nos principais campeonatos do mundo,
ao longo da história. Já apresentei os casos de Inglaterra,
Itália,
Espanha,
França
e Alemanha.
Hoje, é a vez de falar do Campeonato Português.
A evolução do equilíbrio em Portugal é um pouco diferente dos outros países
analisados. Assim como os outros, o Português também tem visto seu equilíbrio
cair nos últimos anos. A diferença é que Portugal teve seu maior nivelamento
histórico nos anos 1990 (e não no passado distante) e hoje, mesmo com a queda,
ainda está longe de seu menor nível histórico.
Veja abaixo a evolução do nivelamento em Portugal, medido pelo Índice de
Equilíbrio (veja aqui como ele é calculado):
Os primeiros 10 anos da história do Campeonato Português tiveram baixíssimo equilíbrio.
Tanto que os 5 índices mais baixos da história do país são todos dessa época. O
torneio de 1939/40 alcançou a pontuação mais baixa que já calculei em qualquer
campeonato: 14,85%.
A maior peculiaridade de Portugal é o crescimento do equilíbrio até os anos
1990, época em que a maioria dos outros campeonatos já apresentava sinais
claros de declínio. Prova disso é que 4 das 5 edições mais equilibradas do
torneio ocorreram entre 1989 e 1993 (curiosamente, o recorde é de 2004/05,
temporada que foi uma exceção numa fase que já era de queda).
Uma coisa que se deve ressaltar é que, mesmo em suas melhores fases, o equilíbrio
em Portugal esteve muito abaixo do dos outros principais campeonatos europeus.
Veja a comparação:
Vermelho: Campeonato Inglês; Azul: Campeonato Francês; Verde: Campeonato
Italiano; Amarelo: Campeonato Espanhol; Marrom: Campeonato Português.
Nota-se que, com exceção de um breve período na década de 1990, o Campeonato
Português foi sempre o menos equilibrado entre os 5 torneios considerados.
Aliás, até os anos 1980, a diferença entre Portugal e o resto era
significativa.
Esse resultado combina com o senso comum. Desde o início de sua história, o
Português sempre foi dominado por apenas 3 times (Porto, Benfica e Sporting).
Isso não mudou até hoje. O que mudou foi que outros países, que antes tinham
razoável equilíbrio entre grandes e pequenos, hoje também vêem domínio absoluto
de 2 ou 3 times, aproximando Portugal do resto.
Desde a implosão do Clube dos 13, habilmente arquitetada por Ricardo
Teixeira e pela Rede Globo, a questão dos contratos de direitos de transmissão
televisivos tem sido motivo de muitas discussões – e preocupações.
Os temores se explicam: sem o Clube dos 13, cada equipe negocia individualmente
seu contrato de transmissão. Com isso, os times de maior torcida (e maior
audiência) ganham poder de barganha. Aos pequenos, restaria aceitar qualquer
oferta que apareça.
Esse modelo de negociação individual tem causado uma disparidade absurda na Espanha,
onde Barcelona e Real Madrid ganham o triplo do 3º colocado e quase 11 vezes
mais que as equipes pequenas. Enquanto isso, na Inglaterra, que negocia em
bloco, o maior contemplado não chega a ganhar nem o dobro do último colocado.
Será que corremos esse risco no Brasil? É possível fazer uma comparação da
distribuição da renda das televisões nos principais países, usando o Índice deGini:
País
|
Índice de Gini
|
Maior / Menor
|
Inglaterra 2011/2
|
8,2%
|
1,6
|
Argentina 2010
|
10,8%
|
1,8
|
Alemanha 2010/1
|
12,9%
|
2,1
|
Brasil 2011
|
21,2%
|
2,8
|
Itália 2012/3
|
24,6%
|
4,2
|
Brasil 2012
|
27,3%
|
4,7
|
Espanha 2011/2
|
47,6%
|
10,8
|
*Cálculo baseado nos números mais recentes disponíveis. Com exceção de
Inglaterra e Itália, que publicam dados oficiais, a conta baseia-se em
informações divulgadas na imprensa e em estimativas. Tabela inclui apenas a
transmissão do campeonato nacional.
**0% significa total igualdade, ou seja, todos os times recebem o mesmo
valor; 100% significa desigualdade absoluta, ou seja, um time fica com todo o
dinheiro.
A boa notícia da tabela é que, mesmo com o aumento da concentração de renda no
último ano, ainda estamos muito longe do abismo financeiro da Espanha. Aliás,
isso é lógico, já que a diferença de popularidade dos dois maiores times em
relação aos outros aqui no Brasil não é tão grande quanto no país ibérico.
É interessante notar, por outro lado, que a distribuição de renda que
existia na época do Clube dos 13 (até 2011) não era muito igualitária, ficando
bem longe do que se vê na Inglaterra, Alemanha e Argentina (e olha que nossos
vizinhos têm dois “gigantes” bem mais populares localmente).
Também fica claro que não há correlação entre equilíbrio na distribuição dos
direitos de TV e equilíbrio no campeonato, como pode-se verificar comparando
esta tabela com o ranking de equilíbrio.
É evidente que os times mais ricos se saem melhor, mas isso não significa que
uma distribuição igualitária do dinheiro da TV, por si só, resulte em um
campeonato mais embolado.
Além disso, uma ressalva deve ser feita: a tabela acima considera apenas o
campeonato nacional. Na Europa, o dinheiro recebido pelas transmissões da Liga
dos Campeões é significativo e cria um “fosso” entre as equipes que participam
do torneio e as outras. Aqui, no Brasil, isso não acontece, já que a Conmebol
repassa pouco dinheiro aos clubes pela transmissão da Libertadores.