segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Cansaço não explica aleatoriedade do Brasileirão


No texto passado, mostrei como os resultados do primeiro turno desteCampeonato Brasileiro foram aleatórios, em comparação com o turno anterior. Tal fato pode até favorecer a “emoção”, mas também é um forte sintoma de que algo está errado no futebol nacional.

As maratonas de jogos a que times como São Paulo, Santos, Internacional e Náutico foram submetidos nas últimas semanas sugerem que a desigualdade no tempo de descanso entre partidas de dois adversários possa ser um fator que contribua para essa incrível falta de consistência das equipes. Vejamos, então, como cada time se saiu neste campeonato, nos jogos em que teve mais dias de descanso que o adversário, menos dias de descanso e igualdade de condições:

Time
Jogos Descansado
Pontos Descansado
%
Jogos Igual
Pontos Igual
%
Jogos Cansado
Pontos Cansado
%
Atlético-MG
3
7
78%
9
11
41%
8
10
42%
Atlético-PR
6
11
61%
11
14
42%
4
10
83%
Bahia
7
5
24%
11
14
42%
3
6
67%
Botafogo
4
7
58%
11
26
79%
6
9
50%
Corinthians
5
4
27%
13
21
54%
3
5
56%
Coritiba
3
7
78%
14
15
36%
4
7
58%
Criciúma
5
3
20%
9
11
41%
7
10
48%
Cruzeiro
3
9
100%
14
25
60%
4
12
100%
Flamengo
5
6
40%
14
16
38%
2
4
67%
Fluminense
4
4
33%
12
16
44%
5
6
40%
Goiás
7
5
24%
8
13
54%
6
11
61%
Grêmio
6
10
56%
10
19
63%
5
8
53%
Internacional
3
5
56%
7
14
67%
11
15
45%
Náutico
8
3
13%
5
1
7%
7
5
24%
Ponte Preta
4
0
0%
15
13
29%
1
3
100%
Portuguesa
8
7
29%
12
15
42%
1
0
0%
Santos
4
7
58%
9
13
48%
7
8
38%
São Paulo
5
6
40%
5
1
7%
11
17
52%
Vasco
7
8
38%
11
15
45%
3
1
11%
Vitória
4
7
58%
14
13
31%
3
7
78%
Total
101
121
40%
214
286
45%
101
154
51%
*Partidas em que os dois times tiveram pelo menos 6 dias de descanso são sempre computadas como em igualdade de condições.

Esta é uma tabela bem grande e confusa, então vamos direto para a conclusão: por incrível que pareça, os times que jogaram mais cansados tiveram melhor desempenho do que aqueles que tiveram mais tempo para descansar. Em outras palavras, a falta de tempo de recuperação não só não explica as zebras, como, do ponto de vista estatístico, parece até ter sido boa para as equipes.

Esportivamente falando, não há explicação lógica para esse resultado. Se o calendário brasileiro fosse muito leve, até que uma sequência mais forte de jogos poderia favorecer as equipes. Mas não é esse o caso – na realidade, o futebol brasileiro tem um dos calendários mais massacrantes do mundo.

Há duas ressalvas que se pode fazer, em relação à metodologia de cálculo. Primeiro, deve-se notar que a lista leva em conta apenas o tempo de descanso das equipes em relação à partida anterior. Mas, em termos de preparo físico, não é só isso que conta. Times com muito jogos disputados ao longo da temporada têm um “desgaste cumulativo” maior, que não foi considerado (não é coincidência que São Paulo, Atlético-MG e Corinthians, entre outros, estejam com desempenho abaixo do esperado).

Também poderia ser questionado o fato de que apenas 1 dia a mais de descanso não faz tanta diferença, em termos de preparo físico. Pode ser verdade, mas, se considerarmos apenas as partidas em que a diferença na folga foi de 2 dias ou mais, a vantagem dos “cansados” aumenta: 53% de aproveitamento, contra 36% dos “descansados”.

E qual a conclusão que se pode tirar de tudo isso? Honestamente, nenhuma. Só se pode dizer é que o Campeonato Brasileiro de 2013 se recusa a seguir qualquer lógica racional.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Brasileirão aleatório


Chegamos ao fim do 1º turno do Campeonato Brasileiro e, como de costume, surpresas não faltam no torneio. Na verdade, até parece que a classificação atual traz mais surpresas que resultados previsíveis. Será que isso é verdade?

Em situações normais, espera-se que os resultados da maioria das equipes em um semestre sejam parecidos com os do semestre anterior. Ou seja, a classificação do 1º turno do Brasileirão-2013 deveria ser semelhante à do 2º turno do Brasileirão-2012 (excluindo-se os 4 promovidos e rebaixados). Colocando-se em um gráfico, a relação deveria ser mais ou menos esta:


Resultados do Inglês 2011/2 comparados com os de 2012/3

No entanto, o que temos no caso do Campeonato Brasileiro é isto:

 
Resultados do 1ª turno do Brasileiro-2013 comparados com os do 2º turno do Brasileiro-2012

O coeficiente de determinação (r²) do gráfico brasileiro é de 0,004 (comparado com 0,707 do Inglês), o que significa que não existe nenhuma relação entre os resultados do ano passado com os deste ano. Em outras palavras, isso quer dizer que o melhor time do 2º turno de 2012 tem iguais chances de ser novamente líder ou de ser lanterna em 2013, ou que o 16º do semestre passado não teria nenhum problema para ser líder hoje.

Os resultados comprovam esse sobe-e-desce. Fluminense e São Paulo, 2 dos 3 melhores times do 2º turno de 2012, neste campeonato ocupam apenas a 10ª e 14ª posições (excluídos os recém-promovidos), respectivamente. Já o atual líder, o Cruzeiro, foi apenas 12º colocado no returno passado. Por outro lado, Grêmio e Corinthians, na ponta, e Portuguesa e Vasco, na rabeira, aproximadamente repetem o desempenho passado.

Os otimistas podem usar esses dados para exaltar o equilíbrio do Campeonato Brasileiro. E não há discussão de que o torneio é equilibrado mesmo. Mas os resultados desta comparação vão além: o Brasileirão não é apenas equilibrado; ele chega a ser aleatório. A oscilação de desempenho de tantos times é tão grande e tão frequente que fatores externos (por exemplo, convocações para a Seleção, cansaço, erros de arbitragem ou mesmo a sorte pura e simples) acabam sendo os principais determinantes para a classificação final.

Isso é reflexo da desorganização geral do futebol nacional, em que times campeões da Libertadores tiram “férias” no Brasileirão, a Seleção rouba nomes importantes dos clubes, diretorias trocam técnicos a torto e a direito, não há planejamento na montagem dos elencos, etc.

Vale lembrar que ter um campeonato equilibrado e imprevisível é divertido, mas, quando chega ao ponto de ser aleatório, perde a graça. Se não fosse assim, cara-ou-coroa seria o “esporte” mais popular do mundo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Times há mais tempo na 1ª divisão


Neste ano, o São Paulo corre sério risco de ser rebaixado para a Série B. É um fato importante, não só pelo tamanho da torcida do clube, mas também porque o Tricolor é um dos 5 clubes brasileiros (junto com Internacional, Cruzeiro, Santos e Flamengo) que nunca foram rebaixados.

No entanto, nunca ter sido rebaixado não significa que o time sempre esteve na primeira divisão. O próprio São Paulo, por exemplo, não disputou o torneio de 1979, por não concordar com a forma de disputa. Assim, o time brasileiro que está há mais tempo disputando o Nacional (incluindo Robertão e Taça Brasil) de forma ininterrupta é o Cruzeiro, presente em todas as edições deste 1966.

E internacionalmente, quais são os times há mais tempo na elite? Vejamos a lista, que inclui os clubes de Brasil, Argentina, Inglaterra, Espanha, França e Itália:

Clube
País
Desde
Internazionale
Itália
1909
Boca Juniors
Argentina
1913
Arsenal
Inglaterra
1919
Athletic Bilbao
Espanha
1928
Barcelona
Espanha
1928
Real Madrid
Espanha
1928
Vélez Sarsfield
Argentina
1944
Roma
Itália
1952
Everton
Inglaterra
1954
Liverpool
Inglaterra
1962
Cruzeiro
Brasil
1966
Flamengo
Brasil
1969
Internacional
Brasil
1969
Newell’s Old Boys
Argentina
1970
Manchester United
Inglaterra
1975
Tottenham
Inglaterra
1978
Santos
Brasil
1980
São Paulo
Brasil
1980
San Lorenzo
Argentina
1983
Milan
Itália
1983
Paris St. Germain
França
1984
Racing
Argentina
1986
Valencia
Espanha
1987
Aston Villa
Inglaterra
1988
Lazio
Itália
1988
Lyon
França
1989
Lanús
Argentina
1992
Bordeaux
França
1992
Espanyol
Espanha
1994
Rennes
França
1994
Colón
Argentina
1995
Estudiantes
Argentina
1995
Udinese
Itália
1995
Olympique de Marselha
França
1996
Fluminense
Brasil
2000
Osasuna
Espanha
2000
Lille
França
2000

O grande líder, entre os principais campeonatos mundiais, é a Inter de Milão, que já passa de 100 anos na elite do futebol italiano. Até recentemente, os Nerazzurri teriam a companhia do River Plate, mas o clube argentino perdeu a “invencibilidade” ao ser rebaixado em 2011. Outro que deveria estar entre os líderes é o Independiente, que ficou exatos 100 anos na elite argentina, mas caiu nesta temporada.

Com isso, o melhor sul-americano é o Boca Juniors, que está na primeira divisão argentina desde 1913. Antes do primeiro brasileiro, a lista ainda traz três espanhóis, três ingleses, um italiano e mais um argentino. Só a França não tem nenhum time na elite há mais tempo que o Brasil – aliás, nenhum clube está direto na Ligue 1 há mais de 30 anos.

Analisando a lista por países, nota-se uma constante: quase todos os campeonatos têm exatamente 6 times que estão na primeira divisão desde a virada do século. As únicas exceções são a Itália, com 5 equipes, e a Argentina, com 8.